Comando da Caixa está nas mãos de agente do mercado privado

Áreas importantes, como as Loterias da Caixa, Cartões, Habitação e Seguros devem ser privatizadas pelo governo Bolsonaro Áreas importantes, como as Loterias da Caixa, Cartões, Habitação e Seguros devem ser privatizadas pelo governo Bolsonaro
terça-feira, 08/01/2019

Em cerimônia realizada na segunda-feira (7/01), junto com os novos presidentes do Banco do Brasil e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Pedro Guimarães assumiu o comando da Caixa Econômica Federa,

Genro do empreiteiro Leo Pinheiro, delator da Operação Lava Jato que contou a história do tríplex em Guarujá (SP) e pivô da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o economista Pedro afirmou que irá fatiar o banco público, realizando a abertura de capital das operações de Cartões, Loterias, Asset e Seguros, para saldar “dívida” de R$ 40 bilhões com o governo federal em até quatro anos.

"Todos nós aqui temos prazo para pagar, os bancos privados também têm. A determinação do meu chefe, o ministro da Economia [Paulo Guedes], é que esses R$ 40 bilhões serão pagos", declarou o novo presidente da Caixa. 

Durante a posse, ele anunciou que a instituição deverá reforçar o financiamento imobiliário via mercado de capitais e investir em microcrédito a juros mais baixos.

O economista Pedro Guimarães trabalhou com Paulo Guedes quando ele ainda era sócio do banco BTG Pactual. Na equipe de transição de Bolsonaro, é um dos responsáveis por fazer levantamento das estatais a serem vendidas. Chegou a ser cotado para nova secretaria de privatizações, vinculada ao Ministério da Economia.

Para o diretor do Sindicato de São Paulo e coordenador da CEE (Comissão Executiva dos Empregados) da Caixa, Dionísio Reis, as afirmações de Guimarães ignoram a contribuição do banco para o País e colocam em risco as funções sociais do banco público.
 
“Esses R$ 40 bilhões não podem servir de justificativa para o fatiamento e privatização de parte do banco. Não é dívida propriamente dita. São recursos investidos no desenvolvimento do País, já que a Caixa, assim como os demais bancos públicos, exerce funções que o sistema privado não está disposto a realizar. Guimarães simplesmente ignora que a Caixa não pode ser comparada com bancos privados. O aporte de recursos na Caixa cumpre tarefa de Estado e não deveria formar dívida. É diferente do banco privado, que se apropria da riqueza das pessoas e paga em dividendos aos rentistas. Na Caixa, o aporte foi um investimento no desenvolvimento, que comprovadamente gerou riqueza para o Estado e a sociedade", destaca.

"A Caixa, na sua imensa magnitude, com o número de clientes superior a população de muitas nações, como o próprio Guimarães reconhece, está presente onde os bancos privados não tem interesse em atuar e cumpre papel social fundamental. Por exemplo, a Lotex, que está fortemente ameaçada de privatização, injeta anualmente bilhões em recursos para a Saúde, Educação, Seguridade, Esporte, Infraestrutura, Cultura, Segurança”, acrescenta Dionísio.

Investimentos sociais

De acordo com a Caixa, entre 2011 a 2016, as loterias arrecadaram R$ 60 bilhões, dos quais R$ 27 bilhões foram direcionados para o financiamento de projetos em áreas como cultura, esporte, bolsas de estudos e segurança pública.
 
Somente em 2016, as loterias operadas exclusivamente pela Caixa arrecadaram R$ 12,9 bilhões, dos quais R$ 4,8 bilhões foram transferidos para programas sociais. Desse total, 45,4% foram para a seguridade social, 19% para o Fies, 19,6 % para o esporte nacional, 8,1% para o Fundo Penitenciário Nacional, 7,5% para o Fundo Nacional de Cultura e 0,4% para o Fundo Nacional de Saúde.
 
“A privatização da Lotex representa uma perda gigantesca para os brasileiros. As loterias Caixa, de forma global, registraram no ano passado uma arrecadação próxima a R$ 14 bilhões. Desse montante, quase metade (48%) foi destinado aos programas sociais. Se a venda for efetivada, o montante deverá ser reduzido drasticamente, já que o leilão, nos moldes pretendidos pelo governo anterior, prevê repasse social de apenas 16,7%”, explica Dionísio.
 
Segundo o sindicalista, a Caixa financia 90% da habitação popular no País e o déficit de moradia é um problema de Estado, não da Caixa. “O Itaú e Bradesco poderiam de bom grado atuar como a Caixa para resolver esse problema, tanto é que a linha Minha Casa Minha Vida está disponível para eles, e não o fazem. O retorno nessa operação é de longo prazo. A inadimplência é menor, mas o retorno de longo prazo. Isso onera a capitalização em curto prazo da Caixa, sua solvência. A Caixa é onerada por um serviço imprescindível que ela presta para o País. Os privados estão dispostos a isso? Óbvio que não. Portanto, não faz o menor sentido compará-los com a Caixa para justificar o fatiamento do banco”, reforça Dionísio.

Crédito

Guimarães também afirmou na segunda-feira (7) que clientes de classe média vão pagar juros de mercado no financiamento habitacional da Caixa. "Quem é classe média tem que pagar mais. Ou vai buscar no Santander, no Bradesco, no Itaú. Na Caixa Econômica Federal, vai pagar juros maiores que Minha Casa Minha Vida, certamente, e vai ser juros que vai ser de mercado. Caixa vai respeitar acima de tudo o mercado. Lei da oferta e da demanda".
 
Questionado se os custos do financiamento à casa própria serão elevados, o novo presidente da Caixa respondeu que "depende".
 
Guimarães disse ainda que o banco vai vender carteiras de crédito imobiliário e que a Caixa "vai passar a ser uma originadora imobiliária, mais do que reter crédito no balanço".
 
“Mais uma vez, Guimarães ignorou o papel estratégico de um banco como a Caixa para o Brasil. Em 2008, por exemplo, bancos públicos, com especial destaque para a Caixa, foram fundamentais para atravessarmos a crise internacional sem maiores problemas, barateando o crédito, o que forçou a queda de juros também no sistema privado, mantendo a economia aquecida. De foma parecida com o que ocorreu em 2012, quando os bancos públicos forçaram a queda dos juros reais praticados pelos privados por meio da concorrência. Agora, a proposta explicitada por Pedro Guimarães e pelo ministro Paulo Guedes é justamente o caminho inverso. Em vez de a Caixa atuar estrategicamente para a baixa dos juros no sistema financeiro como um todo, o banco público vai incorporar a lógica do mercado privado, com intenção de esvaziar a Caixa e enviar recursos cada vez maiores para os bancos privados ”, avalia Dionísio.

Empregos e Direitos

De acordo com o coordenador da CEE, as intenções privatistas e de aproximação da Caixa de uma lógica exclusivamente de mercado, com a paulatina implosão de sua função social, não prejudica somente a população e o desenvolvimento do País, mas também ameaça os direitos e empregos dos empregados do banco público.
 
“Grande parte do quadro da Caixa atua nas suas funções sociais e conquistas como a PLR Social estão relacionadas com essas funções. Defender a Caixa 100% pública é também defender os empregos, direitos e condições de trabalho dos empregados do banco público. Como esperávamos, teremos pela frente um período no qual será necessária muita mobilização e unidade para que privatistas não dilapidem a Caixa, um patrimônio do povo brasileiro”, conclui Dionísio.

Fonte: Spbancarios

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